ARANHAS – Carlos Henrique Schroeder

EU ESTAVA COMENDO UM PASTEL DE ARANHAS VIVAS

É praticamente impossível não pensar no aspecto repulsivo de um aracnídeo quando a gente se depara com um espécime desses. É quase impossível não sentir medo de um veneno que pode até levá-lo a morte, dependendo da espécie da aranha. Eu mesmo mal posso ver uma foto de aranhas sem sentir um grande pavor, pois, como muita gente, tenho aracnofobia (condição zoofóbica, mas também título de um filme que me causou pesadelo na pré-adolescência dos anos 1990.

            Por isso, o autoconvencimento para ler Aranhas de Carlos Henrique Schroeder não foi tarefa fácil. Não porque eu imaginasse que todos os contos fossem falar abertamente de aranhas atacando seres humanos, mas por que qualquer menção a elas me deixa arrepiado – capa, cheia de teias já me era um problema de início.

            Vencido o desafio, é possível dizer que, ao costurar de maneira engenhosa suas histórias, o livro, como toda boa literatura, fala muito mais do humano e seu comportamento do que qualquer outra coisa. Aliás, as aranhas, ou menções a elas, aparecem muito pouco ao longo do livro (apesar dos títulos de todas as histórias serem espécies aracnídeas). A semelhança de comportamento humano-aracnídeo é que dá o tom dos textos.

            Em “De parede”, por exemplo, é possível ver uma alternância entre repulsa e atração, características comuns a medos irracionais e injustificados como as fobias gerais. Em “Tarântula de botas”, talvez seja possível falar em dissimulação, ato muito característico dos aracnídeos, que são sorrateiros e se escondem em lugares onde menos se espera (talvez até debaixo dessa cadeira sobre a qual estou sentado – vale dar uma olhada).

            No conto “Viúva-negra”, a vida de um casal está aparentemente normal. Assistem ao seriado Better call Saul na Netflix, planejando uma viagem para a Europa. Mas há algo sorrateiro ali, não por entre as estantes ou debaixo do sofá, mas dentro deles, uma doença sorrateira que pode vir a qualquer momento atrapalhar seus planos.

            As histórias variam entre mais longas e minicontos, esses contando, muitas vezes, com meia página. Dizem que o conto nada mais é do que um recorte de uma história/vida que existe antes do início do texto e continua depois do final do texto. Lendo as histórias de Aranhas, vemos que a definição cabe bem ao livro.

            Não só pelos minicontos, mas o estilo de escrita de Schroeder parece mais enxuto que os livros anteriores. Quanto à linguagem, embora opte pela norma padrão, não se esquiva quando é necessário dar verossimilhança para os personagens construindo uma oralidade bastante convincente.

            Um dos pontos altos do livro é a reescrita de Metamorfose de Franz Kafka. Gregor Samsa, ao invés de se ver transformado em um inseto certa manhã, acaba se vendo transformado em um aracnídeo de oito patas. Se um inseto já causaria repulsa, imagine o que família sentiu ao ver aquele no monstro no qual Gregor havia se transformado.

            Se aranhas possuem teias para pegar suas presas, Schroeder usa esse recurso para o conto final: “Armadeira”, a mais mortal das aranhas. Aliás, há muito veneno envolvido para os personagens que são resgatados de várias das histórias predecessoras.

            Muitas das histórias são com finais abertos, deixando a tarefa de dar sentido ao texto ao leitor – ponto muito positivo. Outros contos, um pouco mais longos, tocam em questões importantes da sociedade como “Fio-de-ouro”, “Gladiadora”, entre outros. Ao falar de Aranhas, na verdade, falamos sobre nós mesmos e nossos maiores medos.

            Como sonha determinado personagem, construímos nossas relações comendo um pastel de aranhas vivas.

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TÍTULO: Aranhas

AUTOR: Carlos Henrique Schroeder

GÊNERO: Contos

ANO: 2020

EDITORA: Record

PÁGINAS: 192

TRECHOS:

“Você vê uma aranha e imediatamente pensa em veneno ou na sua aparência repulsiva. Esquece que ela é carnívora, como você esquece também que ela se alimenta de insetos (as menores) ou de ratos e pássaros (as maiores), mas só mata o que pode comer. Aranhas não compram animais ou insetos mortos. Não negociam a morte. Não matam por prazer”.

“Quando, certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num aracnídeo monstruoso. Suas oito pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos”.

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