O EVANGELHO SEGUNDO HITLER – Marcos Peres

NA LITERATURA, DIFERENTEMENTE DA VIDA, O ATO DE VINGANÇA SE ENCONTRA SEMPRE NO EPÍLOGO E NUNCA NO PRÓLOGO

Não é empresa fácil falar de um livro depois de certo tempo, sobretudo quando muito já foi dito sobre ele – mesmo em se tratando de literatura contemporânea. Quando um romance faz barulho pela temática e leva prêmios, acaba por “se esgotar” depois de tantas resenhas e opiniões. Acrescente-se o fato de o autor do livro resenhado ser amigo do resenhista, o que é um perigo grande.

            Mas esse texto não pode ser uma lista de escusas. Por isso, vamos falar de O evangelho segundo Hitler, vencedor do Prêmio SESC e lançado em 2013 pela Record. O romance de Marcos Peres é mais do que um livro polêmico com uma suástica na capa, e está muito além de um fenômeno mal cunhado por Alcir Pécora como gripe borgiária.

            Uma das obsessões literárias que perdura ao longo dos séculos é a ideia do duplo, explorada de maneiras bem diferentes e criativas. No romance em questão, também de maneira bem explorada, o narrador em primeira pessoa é duplo do escritor Jorge Luis Borges. Não é um gêmeo ou uma cópia, mas um ser que, por ironia do destino, é homônimo ao outro, é argentino de Buenos Aires e sonha em ser escritor. A sina piora pelo fato de serem contemporâneos.

            A sombra do famoso a tapar o sol do desconhecido. Tudo começa quando ambos, ainda bem jovens, têm suas personas confundidas. O Borges narrador da história descobre como se articula uma série de assaltos contra judeus na capital portenha. Mas a mídia acredita que o verdadeiro descobridor é o escritor argentino que mora na Suíça.

            Um segundo fato destrói qualquer empatia desse para aquele. Ao escrever um poema parnasiano para um jornal, o jovem rapaz homônimo é felicitado pela crítica. Mas o “verdadeiro” Borges logo trata de desfazer o mal-entendido dizendo que não escreveu aquele texto e que alguém quer se passar por ele escrevendo poemas ruins. É o que bastou para que Borges se tornasse inimigo de Borges.

            Mas o caminho dos dois ainda se cruzaria muitas vezes, aliás, estariam conectados para sempre. Querendo se passar pelo escritor famoso, o narrador coloca um conto de seu homônimo em seu livro que fez artesanalmente. Dá o exemplar para Raquel, uma moça por quem ele é apaixonado. Entre esses textos está “Três versões de Judas” um conto, do Borges famoso, que apresenta uma faceta diferente do vilão cristão.

            O que parecia uma mentirinha besta, acaba se tornando uma avalanche de loucuras. Raquel tem um namorado alemão, Rech, que lê o conto e acredita que o Borges desconhecido é uma espécie de profeta a anunciar uma nova ordem mundial. Quando menos percebem, tanto Borges quanto Raquel, estão envoltos em um turbilhão que mistura seita, loucura, cegueira, militarismo, nazismo e próprio Hitler.

            O discurso de Rech é facilmente reconhecível nas ondas fanáticas e fascistas que têm se apoderado de vários países do mundo nos dias atuais. Uma fé cega (redundância?) baseada em argumentos e raciocínios estapafúrdios, e que legitima qualquer ação em nome de um “bem maior”. Uma fé perpetuada por pessoas que não sentem vergonha em justificar o mal para uma dita “evolução”.

            Essa é uma parte da narrativa. Entremeando o percurso de perdição do jovem e frustrado escritor, há capítulos mostrando esse mesmo personagem no fim da vida, ainda arrastado por um sentimento de vingança e desencaixe do mundo, culpando o verdadeiro Borges por todo o fracasso de sua vida.

            Trata-se de um romance vertiginoso, possuindo muitos pontos de reviravolta que devem ser evitados em uma resenha como essa, pois a revelação pode enfraquecer a leitura. Bem encadeado, com cenas bem construídas e sem excesso de descrições inúteis, o romance é talvez um pouco prolixo nas divagações do protagonista – muitas delas justificáveis pelo embate interno que ele passa durante toda sua trajetória.

            Peres mostra que absorveu bem a estrutura policial e folhetinesca: capítulos curtos com quase todos terminando em momentos cruciais, fazendo que o leitor vire logo a página e comece um outro capítulo, sem querer deixar o livro encostado para retomá-lo no dia seguinte. É desses livros que lemos, sem pestanejar, mais de cem páginas numa sentada distraída.

            O evangelho segundo Hitler é uma tripla homenagem. Primeiramente a uma literatura hispana, pela qual Peres é um apaixonado. Homenagem clara também a Borges, esse ícone literário das Américas. É também, pelo estilo, uma homenagem a Umberto Eco, talvez o grande criador de teorias da conspiração. Isso sem se perder na homenagem, criando um estilo próprio que o autor repetiria, dois anos depois, em Que fim levou Juliana Klein?

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  • TÍTULO: O evangelho segundo Hitler
  • AUTOR: Marcos Peres
  • EDITORA: Record
  • ANO: 2013
  • GÊNERO: Romance
  • PÁGINAS: 352

TRECHOS:

Com o conto na mão, escrevi um personagem de acordo com que Borges escreveu e completamente distinto do que pregam as tradições. Um Judas altruísta e humano. Um Judas não movido pela cobiça, mas sim preocupado com um único propósito: com o engrandecimento do nome de Deus que tanto falara seu mestre Jesus. Um Judas portador de uma devoção quase ilimitada, um Judas asceta por um propósito: honrar o nome do Deus que aprendeu a cultuar.

Disse, modesto, que não fora ele o autor do poema; que o poema não tinha os seus traços nem o seu estilo. Disse ainda que, certamente, se tratava de um silencioso e discreto autor tentando se apoderar de seu nome e que, por isso, repudiava tal atitude. Nas entrelinhas, deixou perceber que mandar um poema para o jornal contendo o seu nome fora uma atitude covarde. Concluiu que nunca teria escrito aquelas palavras; que não se tratava de um poema bom, que a canção abundava de significantes e carecia de significados.

Nu, diante de um espelho, vi novamente a tatuagem que adornava todo o meu peito. A serpente, cuja cauda terminava próxima ao meu púbis e que se eregia em minha barriga, enrolava-se em meu umbigo e cuja cabeça raivosa e sapiente estava entre os meus mamilos. A enorme serpente não me deixa esquecer quem sou e o que devo fazer.

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