A MERCADORIA MAIS PRECIOSA: UMA FÁBULA – Jean-Claude Grumberg

O AMOR FAZ COM QUE A VIDA CONTINUE

Uma fábula moderna para adultos e crianças. Um texto tão curto quanto cortante. Uma história que mescla elementos dos contos clássicos com a história moderna. Uma narrativa que, aparente despretensiosa, ressignifica o amor sob contexto de um dos períodos mais mortíferos da história humana. Eis A mercadoria mais preciosa: uma fábula, livro de Jean-Claude Grumberg, que saiu recentemente no Brasil pela Todavia, com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

            Trata-se da história de uma lenhadora pobre que morava na floresta. Era casada e sonhava em ter filhos, mesmo nas condições de vida que levavam. O marido não queria, mas ela mantinha o sonho, que só pôde ser realizado graças a um trem de “mercadorias” que ali passava quase todos os dias. De início, a mulher imaginou que o trem talvez lhe desse, um dia desses, algo para comer. Mal sabia que o trem daria muito mais.

            O comboio, na verdade, não levava mercadorias tradicionais, mas humanos. Na visão do povo eram mesmo mercadorias, pois se tratava de famílias inteiras de judeus que iam para os campos de concentração. Não passavam de objetos, muitos deles sem valor. Os que serviam para algo trabalhariam em alguma função em péssimas condições. Os outros eram levados às câmaras de gás.

            Em dado momento, um pai de família, mesclando o medo da fome e a esperança na salvação de pelo menos alguém de seu sangue, jogou um dos filhos gêmeos recém-nascidos pela janela. Embrulhado em uma manta e caído na fofa neve, a criança teve o impacto amortecido e foi resgatada pela lenhadora que estava à beira da linha do trem, acompanhando o comboio, esperando por um presente. Conseguiu.

            A partir daí o livro mostra a luta dessa mulher pela sobrevivência e proteção de sua filha. O marido vocifera, não quer ver a criança que “não tem coração”. Todos ali odeiam os judeus, pois supostamente esses teriam matado Deus. Mereciam todos morrer. Pouco a pouco, o homem vai vendo que a criança tem sim coração e é humana como todos os outros.

            Ao mesmo tempo, vemos o pai no campo de concentração, sofrendo com a perda da família e esperando que a filha, jogada pela janela, tenha sobrevivido a tamanho genocídio. Várias reviravoltas acontecem fazendo que as histórias, de certa forma, se cruzem novamente.

            Essa fábula paralela ao holocausto é muito bela, mostrando o amor em tempos de guerra, e de como (talvez aqui uma utopia, mas acredito que elas nos movem e nos fazem sair da inércia) o amor pode sim sobreviver aos maiores horrores.

            Ela se faz também necessária em um momento em que, não só no Brasil, mas como no mundo todo, vemos uma remontada de comportamentos fascistas e desumanos. Uma retomada de preconceitos contra aqueles que são diferentes em relação à etnia, à religião, aos costumes, à orientação sexual, entre outros. Apesar de A mercadoria mais preciosa ser uma fábula destinada para adultos, acredito que seja também boa para as crianças, para que elas vejam até que ponto o ser humano pode chegar em sua maldade, ou seu amor.

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  • TÍTULO: A mercadoria mais preciosa: uma fábula
  • AUTOR: Jean-Claude Grumberg
  • EDITORA: Todavia
  • ANO: 2019
  • GÊNERO: Novela/Fábula
  • PAÍS: França
  • PÁGINAS: 75

TRECHOS:

Na verdade, os gêmeos tinham começado a se manifestar no pior momento, na primavera de 1942. Era lá hora de pôr no mundo uma criança judia? Pior, duas crianças judias de uma só vez? Era lá hora de deixá-los nascer assim sob uma boa estrela amarela? Porém, graças a eles, tinha certeza, passaram o Natal de 1942 no campo de Drancy, juntos, sempre.

Eles passaram e repassaram, noite e dia, na indiferença total. Ninguém ouviu os gritos dos comboiados, os soluços das mães misturando-se aos estertores dos velhos, às orações dos crédulos, aos gemidos e aos gritos de terror das crianças separadas dos pais já entregues ao gás.

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