HOLOCAUSTO BRASILEIRO – Daniela Arbex

SÓ PRECISEI CLICAR A MÁQUINA, POIS O HORROR ESTAVA ALI

Eu nunca sei muito bem como proceder quando leio um livro muito bom, mas que trata de um assunto pesado, sobretudo se é uma obra de não-ficção. Ainda mais quando se trata de um genocídio de mais de sessenta mil pessoas. Sim, o que aconteceu no hospital Colônia de Barbacena/MG não foi obra do acaso, foi genocídio com pobres, marginalizados e pessoas com patologias psíquicas.         

           O livro em questão é Holocausto brasileiro, que, além de vencer os prêmios Jabuti e o APCA, vendeu mais de trezentos mil exemplares.  Também pudera, o que ali é contado é impactante. A série de fotos que ilustram a obra, corroboram a força de uma das maiores tragédias da história brasileira.

          O hospital psiquiátrico funcionou durante boa parte do século XX. Os internos ficavam em condições precárias. Arbex vai contar a história de alguns deles, por isso não há um protagonista no livro, talvez o olhar da própria autora. Tanta gente ia parar nesse hospital que o trem que conduzia os futuros internos ficou conhecido como “trem dos loucos”.

        Entretanto, qualquer patologia era considerada “louca”. Podia ser apenas uma tristeza, que poderia ser um indício de depressão, já era motivo para a pessoa ser colocada lá. Provavelmente muita gente com transtorno de ansiedade, síndrome do pânico, bipolaridade, entre outros distúrbios psíquicos também foram colocadas lá. Como essa área ainda era pouco desenvolvida no Brasil, não se tinha uma profundidade na hora de estudar caso a caso.

          Mas o Colônia não foi somente feito de falta de conhecimento, mas de maldade também. Arbex conta que meninas que eram estupradas por homens mais velhos eram levadas, grávidas, para lá. Era uma maneira de se safar do problema e dar um “cala a boca” na família. Salvariam a “honra” da menina lhe enviando para lá. Vagabundagem, vulgo desemprego, também era motivo para a pessoa ser internada no hospital. Alcoolismo também.

            Essas pessoas eram colocadas lá em condições desumanas. Elas ficavam ociosas, ficavam todas juntas em um pátio, tinham pouca roupa e dormiam em capim e feno porque não havia colchões para todos. E nesse capim havia uma proliferação de insetos e bichos, inclusive ratos, o que causou uma enorme contaminação de doenças.

           Eles, às vezes, não tinham nem direito à água. Quem quisesse matar a sede, teria que se servir da água do esgoto ou da chuva. A comida era rala, comiam apenas líquido, porque não davam garfo e faca para os internos com medo de que eles se atacassem e/ou atacassem os funcionários. Comendo tão pouco, e bebendo água suja, essas pessoas ficavam ainda mais debilitadas, o que aumentava consideravelmente o número de mortes ali. Chegou a ter a média de dezesseis mortes por dia.

          Há tantas histórias para serem contadas que uma resenha aqui não dá conta. Arbex foi atrás dos sobreviventes desse holocausto. Encontrou gente que teve muita dificuldade em se reinserir na sociedade. Coisas básicas desde ir ao banheiro, arrumar a cama, atravessar a rua precisavam ser ensinadas.

            Entre as histórias contadas, deixo aqui uma, a de Sônia Maria da Costa, que ficou grávida lá dentro do hospital. Para se proteger dos outros, ela passou fezes no corpo, assim evitando que lhe tirassem o filho. Ela e uma amiga conseguiram sair do hospital e foram ressocializadas. Ganharam uma bolsa, mais um salário mínimo para viver. Poeticamente, Sônia chegou até a ter diabetes. Para quem nunca tinha bebido refrigerante, ela achou Coca-Cola uma iguaria. Viciou. Diabetes não é nada perto da subvida naquele campo de concentração.   

            Arbex tem uma linguagem clara, fácil e constrói uma narrativa fluida. A autora sai de cena para dar a voz a essas pessoas que viveram lá dentro ou viveram nos entornos: médicos, funcionários, vizinhos etc. Toda a situação é tão surreal que era difícil acreditar, às vezes, que não se tratava de ficção. Mas a voz da narradora me fazia voltar para a realidade, colocando dados, fatos e depoimentos que comprovavam a existência daquele horror.       

          É importante ler Holocausto brasileiro para ver como os governos tratam os seres humanos no geral, mas sobretudo pobres, excluídos e indefesos. Esse comportamento está enraizado na nossa cultura. Se a escravidão acabou, a mentalidade escravista ainda não.

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  • TÍTULO: Holocausto brasileiro
  • AUTORA: Daniela Arbex
  • EDITORA: Geração Editorial / Intrínseca
  • ANO: 2013/2019
  • GÊNERO: Memórias/Reportagem
  • PÁGINAS: 280

TRECHOS:

Quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades d e medicina, que estavam abarrotadas de cadáveres, eles eram decompostos em ácido, na frente dos pacientes, dentro de tonéis que ficavam no pátio do Colônia. O objetivo era que as ossadas pudessem, então, ser comercializadas.

Os doidos passavam na porta da casa dela em silêncio, de cabeça raspada, sempre descalços. A cena nunca lhe saiu da cabeça. Aqueles seres esquálidos não provocavam pavor em ninguém, nem mesmo na menina que assistia penalizada ao cortejo dos pacientes.

Ao seguirem pelados para o pátio, os considerados loucos iniciam o mesmo ritual da madrugada anterior. Em movimentos ritmados, agrupavam-se tão próximos, que formavam uma massa humana. Vagavam juntos, com os braços unidos, para que o movimento e a proximidade ajudassem a aquecer. Os de dentro da roda, mais protegidos do vento, trocavam de lugar com os de fora. Assim, todos conseguiam receber calor, pelo menos por algum tempo.

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