NOSSA SENHORA DO NILO – Scholastique Mukasonga

TODAS ESTAVAM UNIDAS NO DESESPERO DE SER MULHER

Uma Nossa Senhora negra não é novidade para um país no qual há milhões de devotos de Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Há, inclusive, outras representações da Virgem Negra ao redor do mundo, inclusive na Europa. Mas a Nossa Senhora do Nilo, figura importante do romance homônimo de Scholastique Mukasonga, é deveras diferente das outras imagens marianas.

            A autora francesa, que já foi e é destaque de feiras literárias pelo Brasil e pelo mundo, é ruandesa e sobreviveu ao genocídio que aconteceu em Ruanda nos anos 1990. Da etnia Tutsi, ela foi a única da sua família a sobreviver aos ataques da etnia Hutu, seus rivais históricos. Desde então, a autora, exiliada na França, escreve quase sempre sobre esse tema. São histórias que precisam ser contadas, como ela mesma diz.

            Em Nossa Senhora do Nilo, publicado na França em 2012 e no Brasil em 2017 pela Editora Nós, a imagem da Virgem Maria negra é associada a uma figura ruandesa. Para conceber a imagem, inspiraram-se em traços de uma das etnias, os Tutsi, que foram sempre vistos pelos Hutus como aliados dos brancos e colonizadores europeus.

            No primeiro capítulo, ainda na época da colonização, vemos a instalação d da grande imagem, bem perto da nascente do grande rio africano. Anos depois, há alguns quilômetros dali, será construído um liceu, que será batizado com o mesmo nome da santa. É ali naquele espaço que acontecerá a maior parte da trama do romance, cujas “protagonistas”, Verônica e Virgínia, são também da etnia Tutsi.

            O livro toca em questões nevrálgicas da história ruandesa – aplicável também na África e em outras regiões colonizadas pela Europa. A imposição da religião é o ponto mais visível desse iceberg estrutural, cuja base é extremamente profunda. A “missão” de salvar os ruandeses de religiões diabólicas é uma das razões da construção desse liceu que abriga apenas meninas.

            No liceu, que tem uma cota de dez por cento para Tutsis, vemos também preconceito racial, além da objetificação da mulher, pois quase todas ali são ricas e foram estudar um pouco para serem moedas de troca em grandes acordos de famílias importantes. Liberdade é uma palavra que passa longe do Nossa Senhora do Nilo, romance e liceu. Como a própria narradora diz, em certo momento, “todas estavam unidas no desespero de ser mulher”.

            Há inúmeras narrativas paralelas e conhecemos também um pouco da história do lugar onde se localiza o liceu, um pouco sobre a colonização de Ruanda, sobre crenças do país, sobre outras personagens do livro, fazendo com que o romance se torne até mesmo polifônico. Virgínia e Verônica acabam recebendo mais atenção da narradora, mas Imaculée, Modesta e Gloriosa também têm suas histórias contadas.

            A narrativa se passa anos antes do genocídio e já é possível ver como as tensões vão se aprofundando. O colégio não fica isento disso, não é um microcosmos à parte no país. Gloriosa é a personagem que representa o ódio, vingança e desejo de morte. O nariz fino de Tutsi na imagem de Nossa Senhora a incomoda. Não quer apenas matar as Tutsis, quer fazê-las com que se sintam menores do que seres humanos, quase Baratas – que é título de um outro livro da autora.

            Com uma linguagem agradável, Scholastique Mukasonga constrói uma narrativa atrativa, com escrita fluida e tom quase didático. Nossa Senhora do Nilo, assim como os outros livros da outra, nos diz que histórias como essas devem ser contadas, em nome dos inúmeros mortos, feridos e perseguidos, seguindo a máxima de que um povo que não conta a sua história está fadado a repeti-la.

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  • TÍTULO: Nossa Senhora do Nilo
  • AUTORA: Scholastique Mukasonga
  • EDITORA: Nós
  • GÊNERO: Romance
  • ANO: 2017
  • PÁGINAS: 260

TRECHOS:

A Virgem que surgiu de baixo do véu parecia  com a Virgem de Lurdes, como a que tinha na Igreja missionária, com o mesmo véu azulado, o mesmo cinto azul, o mesmo manto amarelado. Mas a Nossa Senhora do Nilo era negra, o rosto negro, as mãos negras, os pés negros, a Nossa Senhora do Nilo era uma mulher negra, uma africana e, por que não?, uma ruandesa.

Os professores dizem que os macacos são nossos ancestrais, conversa que deixa o padre Herménégilde com raiva. Não é bem isso que minha mãe conta. Ela diz que, antigamente, os gorilas eram homens que fugiam para a floresta e, ela não sabe por que, esqueceram como era ser homem. Por viverem na floresta tanto tempo viraram gigantes cobertos de pelos, mas quando eles veem uma jovem virgem, lembram-se de que eram homens e tentam raptá-las, mas as fêmeas, que são suas esposas legítimas e têm ciúmes, sempre os impedem de fazê-lo.

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