A TETA RACIONAL – Giovana Madalosso

TUDO O QUE EU ESTAVA SENTINDO JÁ TINHA ESCAPADO NAS ENTRELINHAS

Todas as personagens do livro A teta racional são femininas, com a maioria dos contos girando, direta, indireta ou metaforicamente, em torno da maternidade. O livro de Giovana Madalosso, publicado pela Grua em 2016, alterna contos longos e curtos, falando ainda de relacionamentos, frustrações, carreiras, sonhos, amizades, juventude entre outros.

            A capa do livro conta com um coração, contrastando diretamente com o título, que traz o adjetivo “racional”. Se se fala de maternidade, uma “teta”, metáfora do aleitamento e do ser mãe, a visão aqui é bem pé no chão e sem os clichês e romantismos que são habitualmente usados e empurrados às mulheres quando essas falam de uma identidade feminina.

            O livro já abre com um conto bem forte, com alguns trechos bem “pancadas”. “XX + XY” é uma narrativa sobre maternidade. Sem nenhum romantismo, a narradora mostra as dificuldades de ser mãe, sobretudo solteira, rotulada e estigmatizada por uma concepção impensada e acidental. Se podemos extrair uma síntese do conto seria a palavra “dor”. Nada de “realização espiritual” e alcance daquilo que é “inato a toda mulher”. Ser mãe é doloroso física e mentalmente.

            A personagem tem que lidar com as feridas no peito, intensificadas pela sucção que o bebê faz, as diarreias da criança, a estranheza da relação com o pai, que ela mal conhece, o moralismo da avó pedindo casamento, entre outros. Sem contar o fato de ser mãe “temporã”: aos quarenta anos parece ser antinatural dar a luz a algum ser.

            Dois dos contos parecem ter fôlego para um romance, ou para uma novela. O primeiro deles é “A paraguaia”, um belo conto sobre amizade e juventude x maturidade. Trata-se da história de uma estudante em Curitiba, que conhece uma moça vinda da região do lago Ypacaraí, no país vizinho. O universo estudantil é apresentado por meio de flertes, provas, drogas e experiências sexuais.

            Dezessete anos separam as amigas. Depois do fim da faculdade, a paraguaia, misteriosa desde sempre, nunca mais voltou. Parece ter sido vista na Espanha e em outros lugares. Trocou algumas ligações e cartas para depois desaparecer. Aos trinta e sete anos, em uma crise que antecipa a meia idade, a protagonista recebe um cartão postal da paraguaia. O belo reencontro traz inúmeras surpresas e uma reflexão sobre felicidade e vida adulta, passando longe do piegas e da autoajuda.

            O conto que fecha o livro, “Suíte das sobras” também é outro que de tão bem desenvolvido e ambientado mereceria virar uma história até maior. Basicamente, trata da relação entre mãe e filha, e da dificuldade de amar. A maior parte da história se passa nos Estados Unidos, precisamente na Califórnia, onde a filha mora há muitos anos. A mãe vai para lá passar um tempo para tentar superar a separação.

            Decidem ir até Big Sur, onde Jack Kerouac passou um tempo (ele tem um livro com esse nome), e Henry Miller teve uma casa. O silêncio do local contrasta com a efusão de palavras e sentimentos guardados nas duas personagens, que chegam, em determinado momento, a disputarem a atenção do mesmo homem. A solidão permeia a vida das duas. E também acompanha boa parte das personagens das outras narrativas.

            Tanto “A paraguaia” quanto “Suíte das Sobras” são narrativas que estendem um pouco aquela concepção clássica do conto enquanto recorte da vida de um personagem. Ao contrário dos outros, nos quais essa máxima é levada, neles há mais de um recorte de tempo na trajetória das protagonistas, apontando para narrativas um pouco mais longas.

            Um dos contos mais fortes do livro é “Roleta russa”. Nele, também narrado em primeira pessoa, uma travesti vai a uma festa privada, regada a drogas e sexo. Se boa parte do livro aponta para a complexidade da maternidade, aqui o passo dado vai além: a ejaculação não traz a vida, mas pode trazer/transmitir doenças mortais ao acaso. Pode haver bala ou não no revólver. 

            Os contos curtos também são bons, como “Instantâneos”, que possui apenas uma página. Mas com histórias tão boas e bem executadas, os menores acabam passando quase despercebidos em relação aos extensos, ficam à sombra deles.

            Uma certa ironia e sarcasmo com o establishment, tão notável em Tudo pode ser roubado, livro seguinte da autora (que já foi resenhado aqui na Acrópole), já aparece, de maneira intensa, em A teta racional. Provavelmente esse é um dos motivos que fizeram Carola Saavedra dizer que a referida obra seja o nascimento de uma grande escritora.

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  • TÍTULO: A teta racional
  • AUTORA: Giovana Madalosso
  • GÊNERO: Contos
  • EDITORA: Grua
  • PÁGINAS: 126
  • ANO: 2016

TRECHOS:

Uma égua leva doze meses para gestar um filhote. Ao fim desse tempo, o filhote está pronto. Consegue andar, ir atrás da teta, se virar sozinho. A mulher não consegue levar a gestação até esse ponto porque, se levasse, o bebê cresceria demais e não conseguiria passar pelas ancas. Então, por uma questão física, a mulher precisa parir o filhote antes que ele esteja maduro.

Pessoas que acham cafona ostentar bens materiais, mas que estão o tempo todo ostentando conhecimento, sem se tocar que não há diferença nenhuma entre fazer isso e sair por aí dirigindo um Porsche amarelo.

Levantei com trinta e sete anos e me dei conta que, desde que tinha mudado para São Paulo, eu tinha fumado uns cinco mil maços de cigarro, ovulado umas cento e cinquenta vezes, oxidado alguns milhões de células, gasto mais de cem mil em terapias de todos os tipos, e tudo que eu tinha era um apartamento e um cargo de novelista, o que podia soar muito bem para os outros, mas não aplacava em nada a minha solidão.

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