QUANDO FRONTEIRA – Cândida Almeida

POEMAS NÃO ÓRFÃOS

Divido em quatro partes: “como tocar o entorno”, “cacos colados”, “sê” e “de peito aberto”, o livro Quando fronteira, de Cândida Almeida se sustenta, mostrando uma poeta inventiva e não esgota recursos para atingir o poético em inúmeras instâncias. Publicado em 2019 pela Patuá, o livro da escritora mineira flerta com a poesia concreta, tendo temas variados.

            Em muitos momentos, os recursos gráficos são parte integrante do poema. De cara percebemos isso com o poema “predicado”, cujo único verso é “a morte é uma vírgula”, complemento dado na página seguinte por uma vírgula bem no meio da página. Isso também acontece em “depressão”, poema no qual não há um único verso sequer, mas “apenas” uma página dividida nas cores preta e branca.

            Boa parte dos textos parecem listas de palavras, às vezes com e às vezes sem aparente conexão temática ou semântica, como em “indecência /incerteza / angústia / melancolia / fagulhas para o dia / loucura / devaneio /livros / sabedoria / fagulhas para o dia”; ou ainda em “invento formas/ invento encontros/ invento sentidos / desejos / medidas”.

            Destaque também par ao poema “cinzas”, no qual a poeta usa roupas para falar do abismo entre pobres e ricos, saindo de si realmente tocando os entornos: “no inverno da cidade / caminham apressados / longos sobretudos / cachecóis refinados / botas de cano alto / e engraxados sapatos […] e nas calçadas da Avenida Paulista / abandonados/ ao chão / tênis sem cadarços / em farrapos gelados”.

            Em “cacos colados”, há o poema “aparente”, no qual a poeta fala da inquietação, matéria-prima da literatura: “se nada me inquietar / nada poderei / nenhum poema / nem rasa palavra / escrita / falada / nem mero sentido / irá”.  Nessa parte do livro, os recursos gráficos continuam sendo usados para complemento de sentido, como nos poemas “pesar”, em que a palavra “pesado” está inclinada, e “sobre como entrar em guerra”, onde a palavra “poesia” sopra ao vento e a letra “o” se torna um alvo de tiro.

            Há ótimos poemas como “composição I”, “composição II” e “caminhada”, bem como outros que dialogam com textos drummondianos. É o caso de “deriva”, pois os “poemas são órfãos / de pai, mãe e parteira”, lembrando o limbo dos poemas em “À procura da poesia”

            Em “Sê”, o bom nível é mantido, embora acredite que essa forma imperativa seja muito arcaica para um livro ousado. Destaque para “Dessabida morte”: “a morte não foi feita para ser entendimento / a morte é dessabida / cheia de desrazão / foi costurada para ser aguentamento / bordada de interrogação”.

            Em “De peito aberto”, o nível cai um pouco, sobretudo por manter apenas um tema: amor, sexo e tudo desse campo semântico. Mas também por momentos piegas como em “inteiras”. Alguns bons voos, entretanto, são feitos como em “intento”: “a intenção / de me confundir com o sexo / dela”.

            Quando fronteira mereceu o apoio recebido pelo edital de Publicação de Livros para Estreantes da cidade de São Paulo, pois mostra uma autora de estilo próprio, de voz inventiva, flertando com um que de vanguarda. Nesse livro, contrariando o próprio texto da autora, os poemas não se sentem órfãos.

Compre o livro aqui

  • TÍTULO: Quando fronteira
  • AUTORA: Cândida Almeida
  • EDITORA: Patuá
  • ANO: 2019
  • GÊNERO: Poesia
  • PÁGINAS: 112

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s