A ÚLTIMA CABRA – Lucas Verzola

SOMOS, DE NOVO, UM SÓ REBANHO

Poderíamos dar o adjetivo “seco” para os contos de Lucas Verzola, afinal a definição cai bem às situações e personagens que povoam boa parte de seu A última cabra, que contém dez histórias. Entretanto, o livro, que possui pouco mais cem páginas e foi publicado em 2019 pela Reformatório, ficaria reduzido a um adjetivo, classe de palavra que os narradores dos textos pouco usam – como mandam os manuais da boa escrita.

            Fato é que há uma certa aridez nas relações entre os personagens desses contos. Nada é sentimentalmente derramado, há certa crueza até mesmo na subjetividade desses seres humanos urbanos e contemporâneos. Nem mesmo a relação pai e filho, quase sempre com contornos complexos, escapa dessa tônica que, esvaziada de sentimento, pode evoluir à violência.

            O livro abre com um dos seus melhores textos (e títulos, contando com um tom bukowskiano): “Doses de conhaque e uma dança para garotos na bancarrota”. Guilherme e Rodrigo, pai e filho respectivamente, tentam passar um tempo juntos. A incomunicabilidade e a falta de tato do pai, um “boa vida” que conhece as entras da periferia de São Paulo. O conto reproduz a máxima da compra de um produto/serviço como compensação pela ausência paterna.

            “Butim” também é um conto que se destaca. O protagonista Artur é dono de um posto de serviços em uma estrada outrora movimentada que agora está deserta por conta de uma nova rodovia que desvia o tráfego dali. A chegada de Tonico, com um pneu estourado e sua mãe doente no banco do passageiro, é um acontecimento no meio da tarde morna e árida.

            Tonico representa bem o brasileiro médio, tipo que gosta de levar vantagem em tudo, desmerecendo e desvalorizando o serviço alheio. O tal da “lábia mole”. É um comportamento que precisa ser destruído, ter seus “bens” pilhados. Artur não hesitará em fazê-lo se preciso.

            “Manhã de sábado na barbearia” é um conto sufocante, sobretudo para Vanessa, a única mulher daquela família, que precisa acompanhar o marido Pedro e os três filhos religiosamente em um sábado por mês. O conservadorismo crônico de Pedro é punitivo inclusive com os filhos, que parecem viver em uma ditadura patriarcal.

            Só o delírio pode fazer com que Vanessa escape da situação humilhante que vai se construindo pouco a pouco no salão de Jorge, amigo de infância de Pedro. É quase uma epifania clariciana do conto “Amor”, com um final, mental, bem diferente do abraço afetuoso na volta para casa.

            “Quinze watts” é talvez o conto de maior estranhamento do livro, apresentando o duplo de si mesmo, as possibilidades de construção da própria história em dois vieses completamente opostos. O olho mágico da porta que separa os personagens, também os une, sendo uma metáfora da transposição mágica que acontece quando um “se torna” o outro.

            “Elogio da escatologia” é um conto que mexe com os brios do leitor, ao menos o leitor mais sensível, por conta da escrotidão de um personagem em relação a outro, seu sobrinho, a quem rebaixa usando tabefes, socos e palavras ofensivas. A tragédia iminente revela, entretanto, um segredo fechado à chave.

            E o conto que fecha o livro, e lhe dá nome, eleva a qualidade de A última cabra. Trata-se um thriller psicológico, que lembra muito A ilha do medo, livro escrito por Denis Lehane, cuja adaptação foi dirigida por Martin Scorcese e estrelado por Leonardo di Caprio.  A realidade é difícil tato pois oscila entre camadas de realidade e criação de uma mente que é manipulada e, muitas vezes, se auto-sabota.

            Aparentemente guiado pelas epígrafes de outros textos literários (como Jorge Luis Borges, Raduan Nassar, Guimarães Rosa, entre outros) os contos de Verzola fluem bem, ora mostrando a crueza do mundo de maneira direta, ora dialogando com o insólito, quase como quem diz que o “real” é constantemente permeado por esses elementos estranhos – e tão reconhecíveis.

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  • TÍTULO: A última cabra
  • AUTOR: Lucas Verzola
  • EDITORA: Reformatório
  • ANO: 2019
  • GÊNERO: Contos
  • PÁGINAS: 136

TRECHOS:

Guilherme é um habitué da vida noturna. Bares, bilhares, pensões, prostíbulos: seria capaz de elaborar um catálogo dos principais estabelecimentos de diversão. Nem mesmo a pindaíba era empecilho para se entreter. Além dos tradicionais empenhos e penduras, Guilherme se via, com regularidade, envolvido com agiotas, onzenários, usurários, bem como era conhecido pelas apostas arriscadas com o dinheiro que não tinha e não poucas vezes se metendo em brigas e quase sempre levando a pior.

Não é a primeira vez que fujo dos tigres e estou bem satisfeita. Estamos sempre fugindo de algo e com os tigres ao menos me acostumei. Seus movimentos são previsíveis e, quando caçam solitários, não costuma ser um grande problema encurralá-los. Mesmo na estação em que a neve entulha-se nos pés do Sagamartha, há pouco com o que se preocupar desde que fiquemos juntas.

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