QUATRO VELHOS – Luiz Biajoni

A VIDA É MUITÍSSIMO MENOS ORDENADA E MAIS DESCONCERTANTEMENTE AMBÍGUA DO QUE QUALQUER ROMANCE

Depois de lançar livros como Elvis e Madonna, uma história de amor entre uma travesti e uma lésbica, e a saga Comédia Mundana, trilogia de novelas sacanas, Luiz Biajoni chega com mais um livro “pé na porta” para tirar o leitor da zona de conforto e desconstruir imagens e comportamentos cristalizados. O novo livro do escritor de Americana é Quatro velhos, publicado pela Penalux em 2018.

            A novela parte do seguinte mote: no interior do estado de São Paulo, haveria um casal de velhos aparentemente normais, mas que guardaria histórias bem interessantes e incomuns. O homem seria um filho bastardo do ditador italiano Benito Mussolini. À boca miúda ainda rolava outra história: a de que esse dito casal vivia com mais um homem em casa, numa espécie de relação a três.

            O livro, narrado em terceira pessoa, vai contar então, em primeiro plano, a história de Orlando e Cecília. O casal aposentado não tem grandes emoções na terceira idade. Passados dos setenta anos, ambos se dedicam a pequenas coisas do dia a dia: Ciça gosta de cozinhar e cuidar do jardim. Orlando vai ao supermercado, faz consertos, corta madeira e gosta de colocar alguns discos de jazz para ouvir logo de manhã – apenas de cantoras brancas, o que aumenta a desconfiança da vizinhança, que pelas costas o chama de fascista.

            É uma vida tranquila. O filho, único e já casado, mora na Califórnia. Orlando e Ciça não têm amigos e não se dão muito bem com o vizinho da frente, que adora fazer festas. Mas nada que lhes tire verdadeiramente a paz. Chegaram nessa configuração de vida porque tinham que chegar. Era, segundo o que aprenderam, uma vida normal.

            Isso tudo muda com a chegada de um casal para morar no mesmo bairro de Orlando e Ciça. Ronald e Guinevere são ricos que faliram e resolveram mudar para o bairro, alugando uma casa antiga bem ao lado do casal de velhos. Pelo menos uma década mais jovens que os vizinhos, os novos moradores vão, de maneira rápida, mudar a rotina do tranquilo casal.

            Guinevere não está bem de saúde. A doença parece lhe matar de maneira progressiva. Ronald tenta fazer de tudo para que a mulher se sinta bem, pois acredita que seja possível estarem vivendo os últimos momentos juntos. Ele parece ter planejado para que tudo ocorra de maneira natural, aproveitando o que puder aproveitar. Quando tudo estiver acabado, ele também tem um plano.

            Logo no primeiro dia na casa nova, Ronald acorda com uma música agradável. É Orlando ouvindo seus discos. Um pouco depois, vem um cheiro maravilhoso de costelinha. Música e estômago conquistam Guinevere e Ronald que se convidam para a casa vizinha, um primeiro dia que marca o nascimento de uma grande amizade entre os quatro.

            Biajoni consegue construir um livro muito bonito porque toca em temas sensíveis sem ser piegas ou educativo. Guinevere, mais jovem e conhecedora de mundo que Ciça, ensina essa última a ter certa vaidade, coisa que não tinha há muito tempo. Ronald fala de jazz e leva Orlando a se sentir mais vivo e útil. Orlando e Ciça, indiretamente, ensinam uma felicidade na simplicidade.

            Os dias passam e os amigos ficam cada vez mais próximos. Muitas coisas fazem que a amizade se fortaleça ainda mais. Haverá ainda espaço para briga com os vizinhos barulhentos, processos, possível volta do filho de Ciça e Orlando, fuxico de vizinhança, pequena viagem, bebedeiras em plena segunda-feira à tarde, redescoberta da libido, morte, suicídio, fofoca e gente linguaruda, entre outros.

            Em meio à tanta literatura que toca em pontos sombrios de nossa história e sociedade fazendo com que ecos nos deixem com um certo sentimento de impotência, a novela de Biajoni trata de assuntos pesados de uma maneira leve (e não menos profunda) dando-nos um quê de esperança frente à inevitabilidade da vida.

            Com casais de comportamentos tão distintos construindo uma improvável amizade, Biajoni fala de empatia, de coisas fortemente humanas, festejando momentos fugazes e prazerosos dessa coisa a qual demos o nome de existência, vida que, de tão depressa e ambígua, é sempre mais desconcertante do que a ficção.

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  • TÍTULO: Quatro Velhos
  • AUTOR: Luiz Biajoni
  • EDITORA: Penalux
  • GÊNERO: Novela
  • ANO: 2018
  • PÁGINAS: 172

TRECHOS:

Apanhou outra garrafa de Beaujolais — não seria bom mudar de rótulo. E deu-se conta de que não fazia ainda dezoito horas que eles tinham se mudado para aquela casa e já estavam confraternizando e se divertindo muito. No apartamento da Avenida Brasil eles sequer sabiam os nomes dos vizinhos. Não se lembrou da última vez que estiveram em uma reunião social tão descontraída — ainda mais comendo com as mãos.

Quando saíram, uns vinte minutos depois, Lando e Ronnie conversavam amenidades sobre o bairro à sombra de uma árvore, do outro lado da rua. Ciça usava um vestido levemente curto e claro, branco com pinceladas coloridas — uma peça que ganhara do filho em um Natal e nunca usara: pensou ser muito moderna, ainda mais para ficar em casa. Também estava com os cabelos soltos e maquiada. Lando quase achou que fosse outra pessoa.

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