SETENTA – Henrique Schneider

NOVENTA MILHÕES EM AÇÃO, PRA FRENTE BRASIL, SALVE A SELEÇÃO!

Asco. Essa é a sensação mais pulsante no leitor enquanto devora as páginas do livro Setenta, de Henrique Schneider, obra recém lançada pela Não Editora. Como é possível, você pode se perguntar, devorar um livro cuja história traz na garganta uma sensação tão incômoda? A literatura tem dessas.

            O livro em questão venceu o Prêmio Paraná de Literatura de 2017 na categoria romance (Prêmio Manoel Carlos Karam) consegue ser muito bem escrito, envolvendo o leitor, e também apresentar situações desconfortantes com personagens igualmente inquietantes, mas que são muito verossímeis dentro da história brasileira, de um período que acreditávamos extinto, mas que vemos, pouco a pouco, o aumento de seus ecos na história atual.

            O romance, de pouco mais de cento e cinquenta páginas, parte de um momento de enorme festividade para o brasileiro: o tri campeonato mundial de futebol conquistado pela seleção canarinho no México em 1970. O primeiro capítulo, inclusive, se passa no dia 21 de junho daquele ano da graça, ano que viu uma das maiores seleções de futebol, e do esporte, de todos os tempos – quiçá a maior.

            Entretanto, naquela manhã de junho, em meio ao clima de festividade e alegria de saber que o Brasil estava em evidência no mundo (e era favorito contra a Azurra), Raul, um jovem bancário que nunca se envolvera com política e nem pensara/ se interessara sobre o assunto, é conduzido, com um capuz na cabeça, por quatro homens em um opala pela cidade de Porto Alegre. O rapaz tinha passado vários dias preso pela polícia, acusado injustamente de ter participado de um atentado contra um Cônsul dos Estados Unidos.

            Setenta puxa os leitores pela mão (de maneira nada gentil), nos fazendo adentrar os porões secretos da polícia na ditadura militar, onde os “subversivos” passavam dias sem conta arrastando sua existência entre uma e outra sessão de tortura. É o que acontece com Raul, que caminhava tranquilamente pelo centro da cidade em uma sexta-feira qualquer e que pensava em tomar umas cervejas ou ir ao cinema.

            O livro grita realidades. Em um dos momentos mais fortes do livro, um homem dá um treinamento para homens poderem praticar, com qualidade, a tortura do pau de arara, usando pessoas como cobaias e afirmando em alto e bom tom, e com grande orgulho, de que se tratava de uma invenção genuinamente brasileira, grande contribuição na caçada contra os socialistas/comunistas que queriam “destruir o Brasil”.

            Aliás, é necessário dizer, que o trabalho de capa feito por Luísa Zardo é excepcional. A bandeira do Brasil em evidência mostra, ao invés do círculo em azul, um homem em posição de “pau de arara”, feito também na cor azul, e o título em cor branca a substituir o lema positivista.

            O livro é extremamente importante no contexto atual, pois traz, na voz dos torturadores do regime ditatorial, palavras, comentários e conclusões bem reconhecíveis em 2019. Nos últimos anos o discurso ultraconservador saiu do armário para ganhar as ruas. Sente-se, como outrora, legitimado pela população, uma vez que “precisamos impedir que o Brasil se torne uma Cuba ou Venezuela”.

            Não é de hoje, a história já mostrou, que pessoas cometem atrocidades ao mesmo tempo em que levam uma vida comum. Depois de torturar dissidentes, personagens importantes voltam para casa, preparam a festa de aniversário do filho, falam sobre amenidades, torcem para uma equipe de futebol, vão à igreja para agradecer a Nossa Senhora.

            Eis um exemplo desses discursos: “Família, a gente sabe, é a coisa mais importante que existe, esses comunistas filhos da puta não dão bola pra isso, eles querem terminar com a família, com o respeito, com a religião, com tudo o que é bom! Mas a gente não pode deixar isso acontecer”.

            Setenta exemplifica muito bem esses comportamentos contraditórios, que são justificáveis pela lógica cretina dessa gente, de que o matar é necessário para uma sociedade melhor – a Igreja, por exemplo, já matou muito em nome de Deus e, hoje, embora algumas religiões não tenham dito nada oficialmente, muitos de seus fiéis continuam a legitimar tais “composturas”.

            É tão triste mergulhar em uma história dessas. Triste não só pela tristeza em si, tragédias e crimes (que já têm um peso enorme), mas por ocultar crimes e perseguições por baixo de uma das grandes conquistas de um país que é, sem sombra de dúvidas, apaixonado por futebol. Se Pelé driblava para a levar alegria, agente, na surdina, driblavam as leis para matar gente inocente. O alento é que o futebol não é apenas usado pelos fascistas, mas pode ser uma grande arma social (leia aqui a resenha que fiz sobre O lado esquerdo do futebol, de Larissa Bezerra).

            A grande literatura é atual sempre. É difícil dizer se o livro Setenta sobreviverá ao tempo e será atual em outras épocas. Mas, e eu não queria dizer isso, os anos dez desse século têm muito dos anos de chumbo e, embora não saibamos de casos oficiais de tortura, vemos a legitimação para matar e para depois perguntar.

            Já somos penta, mas o eco do tri ainda reverbera por aqui.

Quem dera fôssemos 4×1. Na maior parte do tempo, somos 1×7.

  • LIVRO: Setenta
  • AUTOR: Henrique Schneider
  • EDITORA: Não Editora/Dublinense
  • ANO: 2019

TRECHO:

E então, este pesadelo real, tempestade que não terminava de desabar, e que acontecia justamente com ele, o homem do terno gris e dos dias medidos, aquele que não tinha que se preocupar porque cuidava sempre para não se meter em confusão […] Por que faziam isso, esses monstros? Por que tão monstros? Aqueles que mostravam prazer em bater, aqueles que fingiam não ter esse prazer – todos iguais, todos monstros.

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