CLORO – Alexandre Vidal Porto

ENSINA-ME A NADAR

É impossível evitar o choque ao ler a frase “Morri ontem de manhã”, ainda na primeira página do livro Cloro, de Alexandre Vidal Porto, recentemente lançado pela Companhia das Letras. Também é quase impossível evitar uma certa lembrança, mesmo que distante, com outro personagem famoso da nossa literatura, que também começa a nos contar sua história pelo fim.

            Entretanto, Constantino, narrador-personagem do livro em questão, talvez tenha muito pouco de Brás Cubas. Se na criação machadiana a morte é o fator libertário para que o narrador destrinche as estruturas sociais e sua hipocrisia, destilando sua ironia e acidez, o novo romance do vencedor do Prêmio Paraná de Literatura é recheado de outros contornos.

            O livro que deu a Vidal Porto tal prêmio (Sérgio Y. vai para a América) talvez se aproxime mais do romance atual, uma vez que em ambos há uma grande discussão e tentativa de aceitação da própria sexualidade. Se no romance anterior o jovem Sérgio Y. já está em grande embate com o próprio corpo e sua homossexualidade, em Cloro, Constantino só se descobre totalmente próximo aos cinquenta anos de idade.

            Infelizmente para os dois o fim é trágico: Sérgio é encontrado morto em Nova York, para onde tinha se mudado há menos de um ano, enquanto Constantino tem uma morte súbita no Japão, para onde tinha ido a trabalho. Ambos desterritorializados, fora do país e fora de si mesmos.

            Constantino, nesse limbo no qual se encontra e narra sua própria história, admite que foi mais cômodo ignorar o desejo e passar a vida reprimindo suas vontades. Conquistou tudo o que um homem de bem, de classe média-alta, pode conquistar: casou com a esposa que namorou desde a adolescência, teve dois filhos (um casal), formou-se em direito e foi trabalhar no escritório do irmão mais velho – pelo qual viaja para vários lugares do Brasil e do mundo.

            Tinha uma vida aparentemente feliz. A relação com Débora, sua esposa, parece ser levada sim pelo amor, mas um amor que quase não envolve sexo. Ela parece viver bem sem uma periodicidade do ato, ao menos é assim que ele entende, ou prefere entender, uma vez que a situação fica muito mais cômoda para ele.

            Entretanto, a perda trágica do filho André faz com que a relação entre os dois, que já era um pouco fria, praticamente congele. Débora se entope de medicamentos, a casa se blinda de seguranças e Constantino passa a viajar cada vez mais. Na verdade, a morte do filho só acelerou o processo de implosão do narrador, que já não conseguia mais controlar o desejo pelas pessoas do mesmo sexo.

            Pouco a pouco, Constantino vai se abrindo à possibilidade da realização carnal de seu desejo, entendendo que, mesmo depois de uma noite de sexo com outro homem, ele continua sendo a mesma pessoa, tendo os mesmos sentimentos, dificuldades, defeitos e qualidades como qualquer outro. Ou seja, não muda nada.

            Suas aventuras chegam ao ápice quando ele conhece Emílio, um diplomata brasileiro. Com ele, Constantino chega o mais próximo possível de entender quem é, e também do que se chama “paixão”.

            A narrativa é extremamente pertinente aos dias atuais. Qual o preço que se paga para entrar em normatividades criadas pelos dominantes? Por quanto tempo se consegue esconder uma parte de si em sótãos empoeirados sem que ninguém se dê conta dessa existência?

            Se a separação da alma/consciência corpo dá margem a Brás Cubas para falar mal da sociedade, e admitir que não fizera nada de realmente importante na vida, Constantino, pode finalmente dizer quem era, como se sentia, sem que um dedo, metafórico e imperativo, apontasse para a sua cara e dissesse quem ele realmente deveria ser.

            Embora seja ficcional, a narrativa se aproxima, em ao menos um ponto, do biográfico, uma vez que o autor já disse publicamente que reprimiu sua sexualidade por muito tempo. Apesar de a temática ser LGBT, o livro transcende porque também pode ser lido como um exemplo de como a sociedade burguesa impõe seus padrões de comportamento.

Com uma linguagem nada rebuscada – com alguns trechos beirando ao coloquial -, Vidal Porto construiu uma narrativa fluida, em tom testemunhal e honesto (que até, compreensivelmente, pode beirar o clichê), com um narrador-personagem verossímil e que pode levar muitos ao autorreconhecimento.

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