ELVIS E MADONA – Luiz Biajoni

LIKE A VIRGIN AND SUSPICIOUS MIND

           O projeto por si só já é ousado. Diferente da premissa habitual (a de que um livro deve ser escrito e publicado primeiro para depois ser adaptado ao cinema, série ou teatro), Elvis & Madona [uma novela lilás], livro de Luiz Biajoni, faz o caminho inverso: é baseado no filme homônimo de Marcelo Laffitte. A obra escrita foi publicada em 2010 pela língua geral.

            Esse mote é caro para os estudos contemporâneos sobre adaptação. Faz ruir o argumento tão comumente usado, o de que um filme nunca é melhor que o livro, pois, além desse último vir primeiro (e por esse fator cronológico já ganha ares de incomparabilidade), o filme não dá conta de tudo o que se passa no universo criado nas páginas escritas. Prefiro o argumento sustentado pelas novas correntes: cinema e livro são plataformas diferentes, portanto, têm resultados diferentes e compará-los é cair em armadilhas previsíveis.

            Entretanto, aqui falaremos apenas do livro, pois é desse material que esse blog se alimenta. Trata-se de uma história de amor não tão comum – melhor que “improvável” – entre uma lésbica, Elvis, e uma transexual, Madona. Ambas as personagens moram em Copacabana e, além do sentimento que descobrem ter uma pela outra, precisam lidar com questões extras que põem em perigo a vida das duas.

           Elvis é uma menina oriunda do interior de Minas que encontrou no Rio de Janeiro uma espécie de refúgio de um mundo que a condenava pela orientação sexual. Alterna sua jornada de trabalho de entregadora em uma pizzaria com free lances como fotógrafa. Já Madona é cabeleireira, deseja ser cantora e fazer sucesso. Em algumas ocasiões faz apresentações em uma das boates de Copacabana, mas sempre tem seu sucesso interrompido por João Tripé, um malandro que constantemente lhe rouba as economias e o coração.

       O encontro das duas protagonistas se dá na casa de Madona, que havia encomendado uma pizza, e que acabara de ser enganada mais uma vez por João Tripé. É Elvis que vai fazer a entrega e encontra uma Madona desmontada em todos os sentidos. Da empatia surge uma amizade, da amizade um interesse, do interesse o tesão, do tesão o amor. Processo de difícil compreensão para as personagens, pois, até então, Elvis só sentia atração por mulheres e Madona por homens (embora, é claro, entendamos que uma transexual tem identidade feminina e Madona, na obra, não foi operada, mantendo o órgão sexual de nascença).

            Essa “confusão” é extremamente interessante para que entendamos os processos de descoberta e orientação, bem como identidade de gênero. O romance, falo do livro, não é de modo algum panfletário, mas mostra com naturalidade os ambientes para onde a transexualidade é empurrada, mostrando seu quotidiano, anseios e dificuldades.

         O ritmo da narrativa é bem dinâmico, por vezes com construções de cena que lembram muito o cinema. O humor também é uma marca forte da voz narrativa. Mesmo em uma história sofrida e difícil, há espaço para algumas sacadas irônicas, sarcasmo e bom humor, dinamizando bem o tom da narrativa, aliviando um pouco a seriedade do tema e da trama.

        Como dito na contracapa, o universo dessa narrativa até mesmo lembra um pouco do universo bukowskiano, mas dele se difere em muitas coisas. Não se trata apenas do olhar de um velho safado – aqui sem nenhum tom depreciativo à obra genial do Buk -, mas de uma ambientação muito diferente da dele, a de um Rio de Janeiro tão pleno de prazeres quando de desprazeres e armadilhas, onde o tráfico dita as regras e envolve toda uma comunidade.

         O amor, que pode parecer clichê de um romance “cor-de-rosa”, aqui aparece com toda sua potencialidade e imprevisibilidade em estilo “lilás” (juntamente com roxo, púrpura ou violeta), cor ou tonalidade geralmente ligada ao movimento gay, dando mais intensidade à história do que um típico romance para “meninas”. O trabalho de capa, muito bem feito por Rico Lins, também corrobora essa intensidade.

        Um romance “lilás” com pitadas de romance policial, numa linguagem agradável, com um ritmo que puxa o leitor para o mergulho na narrativa, marcas que já estavam presentes, por exemplo em Virgínia Berlim [uma experiência] (já resenhado aqui). Eis Elvis & Madona [uma novela lilás], de Luiz Biajoni.

 

 

Foto de Rafaela Barbieri

 

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