HABEMUS NOBEL

          Finalmente temos um brasileiro vencedor do Nobel de literatura. Depois de 117 anos de injustiças, a academia sueca enfim reconhece a magnitude da literatura brasileira concedendo o prêmio a Jacques Fux em cerimônia realizada recentemente em Estocolmo. Seu discurso, entretanto, causou um impacto sem precedentes, gerando não só desconforto nos membros da academia como ocasionando inúmeros bulícios na imprensa, no mercado editorial e nos meios literários.

            Seria uma notícia e tanto caso isso tivesse realmente acontecido no plano da realidade. Mas se trata “apenas” de um livro de ficção. Nobel, do escritor mineiro Jacques Fux, foi lançado recentemente pela José Olympio. Na sua trama, um escritor brasileiro, também chamado Jacques Fux, vence o prêmio literário mais importante do planeta. O livro em si é seu discurso de aceitação do prêmio. Discurso que se torna uma espécie de anti-discurso, uma ferramenta de desconstrução, elemento potente das obras de Fux.

           É uma ideia tão interessante, e ao mesmo tempo tão simples, que é de se espantar como ninguém havia ainda pensado nisso. Palmas para Fux que não só teve a grande ideia como executou brilhantemente a tarefa de galhardear um prêmio Nobel ficcional para um brasileiro (e para si mesmo). Enfim, na peleja latino-americana, empatamos com Peru e Colômbia, e já deixamos a Argentina viúva de Borges para trás.

           Seguindo uma linha muito parecida com a do romance anterior, Meshugá, o livro em questão faz uma recriação biográfica de inúmeros ganhadores do prêmio mais importante da literatura mundial. Não escapam da acidez do narrador nomes tais como José Saramago, Günter Grass, Svetlana Alexievich, Gabriel García Marques, Mário Vargas Llosa, Ernest Hemingway, Jean Paul Sartre, Imre Kertész, Yasunari Kawabata, Elias Canetti, J. M. Coetzee, entre outros; além dos louváveis Jorge Luís Borges e Franz Kafka que acabaram nunca ganhando o famigerado prêmio.

            Fux  tem uma postura diferente na aceitação: sem nenhuma falsa humildade, como acontece com muitos, acredita piamente que é todo merecedor do prêmio, que a academia foi correta e justíssima ao premiá-lo. Também, ao invés de aclamar os outros vencedores do Prêmio, como honra a tradição, Fux expõe suas contradições, seus grandes erros e também canalhices ao longo da carreira. Entretanto, é consciente (ou louco?): coloca-se de frente ao muro de execução, junto aos outros. 

         Desde o início do discurso, Fux alfineta e incomoda. Na verdade, o livro todo é construído com doses cavalares de auto-ironia (um dos grandes bens da autoficção, ao menos desse tipo de autoficção) e sarcasmo. A mescla de ficção e realidade, invenção e fatos reais é também um dos guias da escrita desse romance, mescla que guiou também todos os outros livros de Jacques Fux: Antiterapias (2012); Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor (2015); e Meshugá: um romance sobre a loucura (2016).

         O premiado escritor flerta com a loucura, toca novamente em questões judaicas, constrói-se como um personagem tão interessante quanto contraditório. A crítica a comportamentos e situações preconceituosas revelam inúmeros preconceitos dele mesmo. Quando acusa a academia de ter premiado poucas mulheres, acaba se mostrando misógino. É bom, entretanto, que fique claro: isto é um livro de ficção, não um tribunal facebookiano.

          Com Nobel, Fux revela as entranhas literárias, mostrando que escritores não são necessariamente pessoas boas por trabalharem com arte, mas que são também humanos e contraditórios como todos os seres humanos. Criando um personagem complexo como esse, Fux também mostra que a literatura é muito mais interessante quando aponta para a contradição humana e não faz dela, a literatura, uma arte panfletária que, apesar de sua grande necessidade, às vezes distorce e censura. Fux é sem censura!

 

 

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Escute aqui o início do livro, narrado pelo próprio Jacques Fux:

 

 

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