LEONARDO CONTRA PARIS – Márcio-André

DO REAL AO HIPER-REAL

O tema do duplo é até recorrente na literatura e pode aparecer de inúmeras formas: uma cópia de si mesmo, um irmão gêmeo, um adversário com mesmas características etc. É um mote interessante que já deu vários bons exemplos de romances. Mas o escritor carioca Márcio-André leva a questão do duplo a outros patamares ao inserir nesse jogo a questão do ciberespaço e da hiper-verdade.

O romance em questão é Leonardo contra Paris, publicado pela Confraria do Vento em 2016. O livro se insere na esfera do jogo do real contra o hiper-real, tão em voga hoje em dia com a popularização da autoficção que já fez inúmeras ótimas produções. Entretanto, a grande sacada do autor  foi chamar a atenção para as instâncias tênues entre o eu dentro e fora das redes sociais, o que torna a obra atualíssima.

O protagonista do romance, Leonardo Pontevedra, é um escritor que se envolveu com Beatriz, uma pianista da alta sociedade carioca, pelos últimos cinco anos. Leonardo é de origem pobre e vê que seu envolvimento com Beatriz poderia lhe trazer muitos benefícios. Depois de anos de um relacionamento conturbado, Leonardo é expulso de casa por Beatriz, assim que ela descobre uma de suas traições.

Leonardo Pontevedra anuncia, então, em sua conta de facebook que irá passar os próximos meses em Paris, mais especificamente na super prestigiada Université de Sorbonne, onde lecionará.  Entretanto, ele vai para São João de Meriti, cidade do subúrbio carioca, morar no sobrado que ele herdara do avô. Com boas técnicas para simular sua estadia em Paris, Leonardo faz grande sucesso na rede social, incluindo fotos editadas (de quando esteve realmente na cidade luz) e textos nos quais ele contava suas peripécias pela capital francesa.

Ao mesmo tempo em que se dedica a essa vida paralela no facebook, Leonardo dá aulas gratuitas de escrita criativa em Meriti e se envolve com Joyce, uma sarada de academia que quer escrever poesias. Aí aparecerem também personagens interessantes e um mistério: um suposto bilhete do avô lhe pedindo socorro e dizendo para que ele procure um tal de Afrânio. O problema que o avô morrera há mais de quarenta anos.

O sucesso no facebook é tamanho que as pessoas de passagem por Paris pedem, inbox, para se encontrarem com ele. Professores de vários departamentos da Sorbonne também entram em contato, pois gostariam de fazer uma visita. Não demora muito para que muitas dessas pessoas que tiveram o convite de encontro recusado aparecessem com textões na rede social dizendo que haviam se encontrado com Leonardo em Paris. Logo depois começa a aparecer uma imensidão de fotos dele mesmo em Paris com essas pessoas. Havia algum impostor que, tendo descoberto sua farsa, aproveitou para pegar carona no seu sucesso repentino ou os mentirosos eram muito bons em photoshop, inserindo o rosto de Leonardo em suas próprias fotos?

Não é de hoje que sabemos que o comportamento nas redes sociais não condiz exatamente com o comportamento da vida real. As verdades estampadas em fotografias, check-ins, sorrisos, sucesso e felicidade constante são uma parte do que vem sendo chamada de hiper-verdade, a vida no ciberespaço que parece ser mais real do que a vida fora dele. A vida de Leonardo em Paris vai se tornando cada vez mais real – a sua existência de Meriti não passaria então de uma virtualidade?

Mistura de paranoia com umas pitadas de fantástico, o romance é cheio de ironia e profunda acidez, sobretudo quando o protagonista disserta sobre o campo literário, mercado editorial e seus desdobramentos – resenhas elogiosas sobre livros de amigos e publicadas em grandes jornais; bom relacionamento com professores universitários que também escreverão artigos ou teses elogiosas sobre suas obras; puxa-saco de editores para ser publicado, entre outras coisas.

A possível personificação desse duplo virtual, que estaria ou não perseguindo o “real” Leonardo, instaura mais uma neura no personagem, que já está cheio delas desde a sua inserção no meio literário. Embora já estejamos um pouco cansados de ter escritores como protagonistas de romances, Leonardo contra Paris é uma gratíssima exceção, que traz contornos muito bem desenhados e discussões extremamente atuais e necessárias para o nosso contexto.

 

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